domingo, março 30, 2014

Tertúlia BD de Lisboa - 358º Encontro



Bruno Matos, o Convidado Especial da Tertúlia BD de Lisboa (próximo dia 1 de Abril, na Casa do Alentejo), é mais um dos autores de banda desenhada que se iniciou nos fanzines. 
Foi no Luso Comix, nº 1, com data de Dezembro de 1995 que, fazendo duo com o argumentista Nuno Duarte, surgiu como co-criador do primeiro super-herói português, baptizado
 apropriadamente de Lusitano


E que teve honras de saltar das páginas do fanzine para ser editado separadamente, num fanzine homónimo, editado com o alto patrocínio da Câmara Municipal de Almeirim, por ocasião da exposição "Os Bons, os Maus e os Vilãos 60 Anos da BD Norte-Americana", em cuja inauguração estive presente.
  

No antes citado nº 1 do Luso-Comix - aliás, o único número que foi editado, coisa que acontece bastante com os fanzines -, Bruno Matos assinava um longo artigo, autobiográfico, de que agora lhe pedi autorização para reproduzir. 
Ei-lo (e atenção, foi escrito em 1995):

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VOZES DE VALHALLA

por BRUNO MATOS (FAUSTO BRUNO OLIVEIRA DE MATOS)


Ainda me recordo das primeiras bandas desenhadas que fiz, há 15 anos atrás. Era eu um puto de 5 anos, que ainda não sabia escrever mas que já transpunha para o papel histórias fantásticas que fervilhavam na minha mente.
Embora durante a minha infância tenha lido revistas como o Tintin ou o Jornal da B.D., sempre senti uma forte atracção pelo fascinante mundo dos super-heróis, mais precisamente pelo BATMAN e pelo SUPER-HOMEM, que tinham as suas próprias revistas editadas pela Agência Portuguesa de Revistas.
"Acordei" para o mundo MARVEL em 1985, através do número 19 da revista do HOMEM-ARANHA, e a partir daí o vício foi aumentando. Se juntasse todo o dinheiro que já gastei até hoje em revistas de banda desenhada, já dava para comprar... esqueçam! Todo o dinheiro gasto em B.D. de qualidade é dinheiro bem usado.
Foi então que comecei a criar vários heróis, uns ainda recuperáveis e outros com poderes tão idiotas que ficaram bem escondidos numa gaveta escura. Foi nessa onda de criatividade que surgiu o LUSITANO. Em 1988 fiz os primeiros esboços do personagem, um herói vestido de verde que materializava tudo em que pensava, mas após refletir um pouco cheguei à conclusão que estes poderes tinham muitos "buracos", e que a origem (tinha encontrado umas pulseiras mágicas) não se relacionava com um espírito português que eu queria realçar. Após alguns esboços criei um uniforme muito semelhante ao actual, mas continuava sem encontrar uma boa origem. Foi então que entrei numa época em que desenhei pouco, e o LUSITANO acabou fechado numa gaveta.
Passados 4 anos, uma das minhas irmãs, que vive nos U.S.A, enviou-me um "Submission Guide" da MARVEL, e eu, empolgado, recomecei a desenhar e enviei uma B.D. para a editora americana. A resposta foi um simpático "pontapé no cu" que fez com que eu acordasse para a realidade e entendesseque tinha de trabalhar muito para um dia desenhar um comic book americano. Fui então comprar o livro "How to Draw Comics, the Marvel Way" e comecei a trabalhar para um concurso de B.D. que ia ocorrer na Amadora, o qual não ganhei mas que serviu de incentivo para trabalhar mais.
Enquanto mexia nuns papeis velhos, encontrei o esboço do LUSITANO e resolvi criar uma origem sólida para o personagem.Nasceram então BARTOLOMEU, um marinheiro ávido por aventuras, e DANIEL (homenagem ao meu sobrinho nascido em 1993), um jovem dos nossos tempos com um grande senso de justiça. Surgiu também o VIAJANTE (vai aparecer nos próximos números deste fanzine), um homem que em vez de destruir a história de Portugal como a conhecemos, acabou por contribuir para a criação do símbolo que a nossa nação necessitava. Em vinte e poucas pa´ginas estava pronta a origem do LUSITANO.
Através de um amigo conheci o desenhador Estrompa e mais algumas figuras do "escondido" mundo da B.D. portuguesa, o que tenho de admitir que foi muito importante para entender melhor que factores como como o uso das sombras, o enquadramento ou os ângulos de visão ajudam a dar vida aos personagens (obrigado por tudo, ESTROMPA, e boa sorte para o SHOCK).
Orientado pelo Estrompa,procurei o editor da revista ARTE NOVE, de seu nome Miguel Jorge. Ele pediu-me uma história de 8 páginas do LUSITANO, e foi no momento em que tentava inventar uma boa história que conheci o Nuno Duarte, namorado de uma colega minha da universidade.
Começámos a funcionar em conjunto, e as ideias dos dois encaixavam-se plenamente. Nasceu "A Verdade do Lagarto" e muitas outras histórias que vocês irão conhecer.
Após registar o personagem na S.P.A. (Sociedade Portuguesa de Autores), mostrámos a história ao Miguel Jorge, que a recusou para a ARTE NOVE e posteriormente para a CRASH, revista também da sua responsabilidade (ambas as revistas já sairam do mercado).
Foi então que eu e o Nuno resolvemos fazer um fanzine de super-heróis, onde todos os amantes dos comics pudessem mostrar os seus personagens.
Queremos fazer com que este fanzine dure uma vida e que cresça, mas isso só é possível com a vossa colaboração, por isso apertem os cintos que a viagem do LUSO COMIX acaba de começar...

PS: O Estrompa que se cuide, pois um dos nossos objectivos é conquistar o 1º lugar no mundo dos fanzines e arrecadar todos os prémios!
Um abraço para todos.
Bruno 
95    


1ª Nota do blogger: 
Fausto Bruno Oliveira de Matos (Bruno Matos) nasceu em Benguela, Angola, a 29 de Agosto de 1975


2ª Nota do blogger: 
Podem ver o webcomic Lusitano - Nasce Uma Lenda no endereço
http://divulgandobd,blogspot.pt/2013/03/webcomics
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Imagens (de cima para baixo)

1) Uma boa foto panorâmica do Salão Nobre da Casa do Alentejo onde, no dia 1 de Abril de 2014, se realizou o 358º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa. 

2) Carlos Moreno, Fausto Matos (Convidado Especial), Inês Ramos e António Isidro (o quarto elemento do quarteto que dirige agora a TBDL é o Álvaro, que se vê reflectido no espelho)

3) Mais uma foto tipo "cinemascope", com o senão de estar tremida... 
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Tertulianos que marcaram presença neste memorável encontro da TBDL
Lista de participantes fornecida por Inês Ramos, elemento do quarteto que desde Julho de 2013 dirige a TBDL, e aqui acrescentada "a posteriori"

1. Abílio Pereira
2. Adelina Menaia
3. Álvaro
4. Ana Barroso
5. Ana Saúde
6. António Isidro
7. Bruno Matos 
8. Cristina Costa Amaral 
9. Falcato
10. Filipe Duarte
11. Geraldes Lino
12. Helder Jotta
13. Hugo Tiago
14. Inês Ramos
15. João Amaral
16. João Antunes
17. João Figueiredo
18. João Vidigal
19. José Abrantes
20. Luís Graça
21. Maria José Pereira
22. Moreno
23. Outro Nuno (Nuno Duarte, desenhador)
24. Paulo Costa
25. Policarpo
26. Rui Domingues
27. Sá-Chaves
28. Sidney Gusman (do Planeamento Editorial de Maurício de Sousa Produções)
29. Simões dos Santos
30. Victor Jesus 

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Os visitantes interessados em ver as anteriores postagens deste tema poderão fazê-lo clicando no item Tertúlia BD de Lisboa incluído em rodapé

sábado, março 29, 2014

Reeditar os Clássicos da BD - Manuel Caldas e Pedro Cleto em Mesa-Redonda


 




O nome de Manuel Caldas começou a ser conhecido a partir de 1986 através da edição do seu notável fanzine de estudo sobre BD, o Nemo, que haveria de revelar o faneditor como um caso sério enquanto profundo conhecedor do autor Harold Foster e do seu famoso herói Príncipe Valente. Mas também como dotado paginador e designer (amador), qualidades bem visíveis no aspecto gráfico do miolo do fanzine.

Tendo-se tornado editor profissional na área da BD, Manuel Caldas tem a seu crédito edições de extrema qualidade gráfica - conseguida por aturado trabalho de recuperação e aperfeiçoamento de imagens antigas e deterioradas -, dedicadas a várias personagens da Figuração Narrativa.

No seu arranque como editor a tempo inteiro, ele voltou ao Príncipe Valente - uma antiga paixão detonada na sua adolescência - mas agora concretizada em livros impressos (a sua editora tem o nome de "Libri Impressi") de grande formato e de qualidade superlativa, incluindo um extenso estudo de sua autoria intitulado "Foster e Val - Os Trabalhos e os Dias do Criador de Prince Valiant."

A sua actividade contínua na edição já abarcou várias personagens da BD - além do Príncipe Valente - designadamente Cisco Kid, Dot & Dash, Ferd'nand, Krazy Kat, Os Meninos Kin Der (Kin Der Kids), Lance, Tarzan, de que tem restaurado escrupulosa e rigorosamente as páginas de jornais antigos e deteriorados. A qualidade extrema das suas edições tem sido reconhecida no estrangeiro, e podem apreciar-se no seu site (1)

Quanto a Pedro Cleto, que fará a apresentação do editor, é crítico e divulgador de BD, além de blóguer do activíssimo blogue "As Leituras do Pedro" (2) e colaborador freelancer do diário Jornal de Notícias.

A mesa redonda, intitulada "Reeditar os Clássicos de BD", realizar-se-á hoje, Sábado, dia 29 de Março, pelas 18h00, na FNAC/loja do Norte Shopping.

(1) www.manuelcaldas.com
(2) http://asleiturasdopedro.blogspot.pt

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MANUEL CALDAS

Síntese biográfica

Manuel Caldas nasceu há 54 anos e começou a fazer fanzines em 1986. Durante 13 anos a sua actividade foi intensa, publicando vários títulos que se distinguiram entre outras qualidades por uma periodicidade fielmente cumprida.

Eis os títulos e números publicados dos seus fanzines:
NEMO - 36 números, entre 1986 e 1998, distribuídos por duas séries, mais três números extraordinários.
ZERO 24 números, entre 1990 e 1999.
THE NEMO BOOKLETS OF CLASSIC COMICS - 17 números, entre 1992 e 1998.

SUNDAY COMICS -  4 números, em 1998 e 1999
Durante esse tempo publicou ainda 6 fanálbuns, com reedições de clássicos portugueses e estrangeiros, e duas edições do livro, por ele escrito, "Foster e Val".
 

Afastando-se durante alguns anos da vida pública, mas não da banda desenhada, regressou em 2005, já não como editor amador de fanzines, mas como editor profissional de livros comerciais.                  

A ele se devem, assim, os primeiros 6 volumes de "Príncipe Valente" publicados até 2007, numa colecção de que foi afastado pela perfídia e a ganância do seu sócio.
 

Entretanto, em 2006 havia começado a publicar a mesma série em língua espanhola, da qual sairiam seis volumes, seguindo-se até agora mais três produzidos para a editora La Imprenta, do Uruguai.  

Mas não só pelo Príncipe Valente se ficou: até agora já publicou obras em espanhol ou em português, ou em ambas as línguas, de autores como George Herriman, Cliff Sterrett, Dik Browne, Milt Gross, José Luis Salinas, Al Mik, Lyonel Feininger e Warren Tufts (na sua página web  www.manuelcaldas.com  podem ver-se os títulos, além das capas). Deste, o seu trabalho de restauração da série "Lance" foi também publicado na Alemanha pelo editor Bocola e será publicado na Noruega por Thule Forlag.
 

Também o seu livro "Foster e Val" foi publicado em Espanha, por Dólmen Editorial.
 

Manuel Caldas publicou ainda três livros que não são de banda desenhada: "O Livro do Buraco", de Peter Newell, "O Corvo" e "O Poema do velho Marujo", ambos com as gravuras de Gustave Doré.

Neste momento tem no prelo o primeiro volume em espanhol das tiras diárias do Tarzan de Russ Manning e quase pronto o primeiro com as pranchas dominicais a cores.

Espera continuar a sobreviver editando apenas e unicamente aquilo de que deveras gosta. 
E não deixará de se esforçar para um dia ser finalmente reconhecido como "o maior especialista a nível mundial da obra de Hal Foster", não apenas "um dos maiores", como sempre o referem.
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sexta-feira, março 28, 2014

Como Desenhar Super-Heróis


Temos de novo Nuno Saraiva a ensinar como se criam graficamente os "Super-Heróis em Banda Desenhada", sendo este o título do workshop, bem explícito quanto à sua finalidade. 

Altamente curioso é o facto de haver modelos ao vivo para concretizar o desenho de super-heróis ao estilo Marvel e DC Comics. Muito gostaria eu de poder reproduzir uma fotografia de uma dessas quatro sessões de duas horas cada que compõem o curso. Como sou amigo bem antigo do Nuno (ele já me acusou em público de ter sido eu o "culpado" de se ter dedicado à BD...), vou pedir-lhe para ele próprio fotografar o modelo em pose de super-herói, de forma a que eu possa ilustrar um próximo workshop. Que eu saiba, este é o segundo dedicado ao tema.   

E atenção, interessados: a primeira aula é já amanhã!
Como se pode ler no cartaz acima reproduzido, as aulas decorrerão entre 29 de Março a 16 de Abril, sempre aos Sábados, das 17h00 às 19h00.

O local onde vai decorrer o mini-curso (total: 8 horas) identifica-se como:
MArt - Espaço de Projecto, Aprendizagem e Experimentação Artística, localiza-se na Rua Rosa Araújo nº 12-3º andar, em Lisboa.

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quarta-feira, março 26, 2014

Batman no CNBDI - Mesa-Redonda

Bruce Wayne é uma personagem da BD americana, na área mainstream dos super-heróis. É acerca dele - ou melhor, acerca de Batman, criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger - que irão falar três especialistas que o conhecem bem: João Miguel Lameiras (crítico, divulgador e livreiro), José de Freitas (ex-responsável editorial da Devir que publicou Batman nos inícios de 2000) e Luís Salvado (jornalista especializado em Cinema e também grande conhecedor de BD).

Estas três individualidades serão responsáveis por uma mesa redonda intitulada Heróis de Papel, Batman 75 anos, que se realizará amanhã, quinta-feira, dia 27, pelas 21h00, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem - CNBDI, cidade da Amadora.

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domingo, março 23, 2014

Pedro Massano e "A Batalha" - Entrevista




Pedro Massano é, entre os autores da BD portuguesa actual, um dos de maior prestígio, com uma obra em dois tomos publicada em França - ainda não traduzida em Portugal -, e numerosas obras editadas entre nós. 

A Conquista de Lisboa, em dois volumes, tinha sido a sua mais recente obra editada em Portugal, mas está prestes a acontecer o aumento da sua bibliografia com a próxima edição do livro intitulado "A Batalha - 14 de Agosto de 1385".

Trata-se de obra encomendada por uma Fundação, de cuja feitura tive conhecimento desde o início, e de que vi algumas pranchas esporadicamente, primeiro desenhadas a lápis, mais tarde algumas já terminadas.
Nunca fiz qualquer divulgação, respeitando o pedido de sigilo que me fez Pedro Massano. Porém, tendo tido conhecimento de estar próximo o seu lançamento, caducando portanto a justificação do sigilo, decidi entrevistar o autor, e graças às suas respostas, desvendar pormenores relacionados com esta muito importante e inesperada edição.

Segue-se a entrevista.

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GL - Pedro Massano: Tenho acompanhado o teu imenso trabalho de realização da obra em BD "A Batalha - 14 de Agosto de 1385", que está terminada e prestes a ser lançada pela editora Gradiva.
Sei que se trata de encomenda de uma importante instituição. Podes contar-me em pormenor como, quando e por quem te foi apresentado este projecto?

Pedro Massano - Fui  contactado por um responsável da Fundação Batalha de Aljubarrota, e o projecto deveria fazer parte do conjunto de documentos que o CIBA – Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota tem vindo a editar para esse fim.

GL - O argumento e respectivo guião de "A Batalha" são de tua autoria. Como sei quão elevado é o teu nível de exigência e de rigor histórico, calculo que tiveste de te basear em textos escritos por autores dignos de crédito. Quais?

PM -   Em primeiro lugar, obviamente, Fernão Lopes: uma dor de cabeça para restabelecer a cronologia, porque ele anda para trás e para diante, ao “sabor da pluma”, sem nenhuma consideração por nós – pobres leitores da era dos filmes e do híper texto – baralha tudo, volta a dar, e o leitor que se desenrasque. Para além disso, mascara alguns pormenores sem os quais o desfecho quase não se percebe. Esta foi a parte que mais trabalho me deu na preparação, mas o F. Lopes é sempre de uma riqueza e de um colorido fantásticos.
Depois, Froissart, que tem dois relatos; um primeiro, quase inócuo, escrito pouco depois do acontecimento, a partir de relatos de sobreviventes franceses.  E um segundo, resultante de uma entrevista ao filho do Diogo Lopes Pacheco na Flandres – aonde se deslocou para o encontrar – que, esse sim, complementa e traz nova luz à leitura de Fernão Lopes.
Por último, e de enorme interesse, a carta de D. Juan (rei de Castela) aos murcianos, que é um quase pedido de desculpas pela derrota sofrida, e os escritos de Pêro Lopes Ayalla (cronista de D. Juan) que visam desculpar o rei perante a posteridade.
Fiz questão de ler os textos nas transcrições dos originais, porquanto nas adaptações e nas traduções perde-se sempre muita coisa.

GL - Trata-se de uma obra de grande envergadura. Quantas pranchas fizeste?

PM - O número de pranchas desenhadas é de 86.

GL - Lembro-me de ter visto no teu estúdio umas pranchas duplas. Sempre foi possível incluí-las no livro?

PM - Todas as pranchas são duplas.
Gosto do efeito de alguns desenhos passarem de uma página para a outra, mesmo que isso possa dar algum trabalho às gráficas e, houve alguém que me disse, um dia, com muita graça, que eu não era capaz de respeitar os quadrados e de deixar os desenhos sossegados lá dentro.
As únicas pranchas singulares são a 1 e a 86. 

GL - A obra é completamente tua, incluindo a legendagem e a colorização. Quanto tempo investiste na sua execução?

PM -  Demorei cerca de dois meses com o texto, e mais um ano e pouco a desenhar tudo a lápis, para o conjunto poder ser aprovado pelo historiador que, à altura, tinha essa responsabilidade por parte da Fundação, o prof. Mário Barroca.
Para a execução final não me comprometi expressamente com prazos – e isto tenho de agradecer à Fundação – porque sabia e queria que a obra me desse o trabalho que merecia. Demorei cerca de 4 anos.

GL - Sendo a legendagem escrita por ti, gostaria de saber se usaste a ortografia antiga, a do acordo de 1945 (AO45), ou se a escreveste em conformidade com o novo acordo de 1990 (o AO90).

PM - Usei a antiga, embora o que haja mais na “Batalha” sejam “espetadores".
 
GL - Sei que a capa com que é editado o livro não foi a primeira que fizeste. Por que foi substituída essa capa inicial?

PM - Foi um daqueles acidentes que acontecem, às vezes, nestes percursos. O editor achou que a primeira capa “não vendia”…  Mas, para quem passou a vida a trabalhar para clientes, uns com ideias, outros sem, até poderia fazer uma terceira.

GL - Estás satisfeito com o resultado final, ou pensas que poderia ter ficado melhor em algum aspecto?

PM - Penso que houve cuidado, de todas as partes envolvidas, em respeitar o mais possível o que estava feito. Quero salientar o empenho da Multitipo – amigos que já não via há 30 anos! – no resultado final da cor.
 
GL - A edição será posta à venda na totalidade, ou haverá uma parcela reservada para a Fundação?

PM - Quanto a isso não seria elegante, da minha parte, estar a comentar acordos que desconheço entre a Gradiva e a Fundação. A pergunta deve ser-lhes dirigida.
 
GL - Quando e onde será lançada a obra? 

PM - Também não faço a mais pequena idéia.

GL - Agradeço-te a disponibilidade.

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Imagens que ilustram o presente "post":

1 - Capa definitiva da obra

2 - Capa realizada inicialmente mas não utilizada, mais a contracapa 

3 e 4 - Pranchas duplas da obra

5 - Foto recente de Pedro Massano

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sexta-feira, março 21, 2014

Autor de BD como personagem da sua banda desenhada (XVI) - Joe Kubert



São numerosos os casos em que um autor de BD se auto-retrata na sua própria banda desenhada, e Joe Kubert vem enriquecer a galeria já apresentada neste blogue, tendo sido afixado o primeiro "post" deste tema em 25 de Outubro de 2005.

Ao longo dos nove anos de existência do "Divulgando Banda Desenhada", foram visionadas dezena e meia de exemplos bem representativos desta tendência quase compulsiva dos autores de BD, a maior parte das vezes colocando-se eles próprios a protagonizar cenas imaginárias, como acontece nesta curtíssima de Joe Kubert, uma autêntica pérola, que apenas era conhecida dos bedéfilos que puderam adquirir o Comic Book Creator #2, 2013 Summer Annual (First Printing - July 2013), entre os quais este mesmo sortudo blóguer.

Todavia, a partir do presente "post", haverá umas centenas de admiradores do grande Joe Kubert que igualmente ficarão a conhecer tão invulgar peça de BD.

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JOE KUBERT (1926/2012)

Síntese biobibliográfica



Joseph (Joe) Kubert nasceu em 18 de Setembro de 1926, na Polónia, mas seus pais emigraram para os Estados Unidos da América quando ele tinha apenas dois meses de idade. É presumível que tenha sido naturalizado americano.

A sua preparação iniciou-se com um estágio no estúdio de Harry A. Chesler, em 1939, passando em seguida a frequentar a New York's High School of Music and Art.

O seu início na BD deu-se em 1941, nos "Catman Comics", com os grupos editoriais "Quality", em "Phantom Lady" e "Espionage", MIJ em "Flag-Man", "Boy Buddies" e "Black Witch", e em 1943, para a DC, onde Kubert trabalhou em várias séries de "comic strips" (entre 1943 e 1949), nas quais se incluem "Johnny Quick", "Zatara", "Newsboy Legion", "Shinning Night", "Crimson Avenger", Hawkman", "Dr. Fate" e "Flash". Ainda nessa época trabalhou também nas séries "Shick Gibson", "Zebra" e "Black Cat".

Inicialmente influenciado por Hal Foster e Alex Raymond - como muitos outros dessa geração -, ele evoluiu para um estilo de claros-escuros mais contrastados, o que lhe granjeou notoriedade nos anos 1950, integrando-se no grupo editorial Archer St. John, onde realizou uma bd intitulada "Tor", em que Kubert era autor completo - escrevia o argumento, passava-o a guião, desenhava o "layout", fazia a arte-final e coloria (o que não está mesmo nada nos esquemas de trabalho nos "Comics" americanos). Ao longo dos anos sessenta, ele desenhou "Cave Carson", "Rip Hunter" e "Sea Devils".

A série "Tor" tinha entretanto granjeado grande fama, o que levou a editora National a convidar o autor/artista a retomá-la em 1975.

Posteriormente Kubert centrar-se-ia em séries de guerra, nomeadamente "Sgt. Rock", "Enemy Ace" e "Unknown Soldier", contando então com o argumentista Bob Kanigher. Especialmente "Enemy Ace" - em que surgia a personagem Baron Von Richtofen - tornou-se um exemplo de escelente trabalho baseado nos aviões da Grande Guerra.

Nessa mesma década de 1950 a 1960, Kubert dedicou-se a uma série de sword and sorcery, "Viking Prince" e para o renascido Hawkman.

Nos anos 1966 e 1967, ele passou a colaborar nos jornais Chicago Tribune - New York News, com a famosa série "Green Barets".

Nesse último ano de 1967 deu-se o regresso à National, voltando a responsabilizar-se por várias séries, entre as quais "Tarzan", sendo que esta, nas décadas de 1970 e 1980, lhe granjeou grande prestígio.

Foi exactamente sobre essa série que incidiu o meu pedido, ao qual Joe Kubert amavelmente acedeu, traçando de improviso este meu desenho autografado de estimação, visível no "post" (*)
Joseph "Joe" Kubert faleceu em 12 de Agosto de 2012.

(*) http://divulgandobd.blogspot.pt/2011/11/autografos-desenhados-xviii.html

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Para os interessados em visionar as postagens anteriores do tema Autor de BD como personagem da sua banda desenhada, basta clicarem nesse item que aparece escrito ao fundo, no rodapé.
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 Entretanto, para se ver a lista de autores e personagens anteriormente focados, aqui a ponho visível:

(XV) - Outubro 21 - Pedro Brito
2012 (daqui para cima)

(XIV) - Outubro 8 - Nuno Saraiva
(XIII) - Março 29 - Fernando Bento
2011 (daqui para cima)

(XII) - Maio 23 - JCoelho
2010 (daqui para cima)

(XI) - Fev. 25 - Pedro Manaças
2009 (daqui para cima)

(X) - Fev. 10 - Moebius
2008 (daqui para cima)

(IX) - Fev. 27 - C. Zngr (Carlos Corujo "Zíngaro")
2007 (daqui para cima)

(VIII)-Set. 11 - Art Spiegelman
(VII) - Ag. 29 - Nuno Markl
(VI) - Ag. 20 - Pedro Morais (desenhador), Luís Almeida Martins (argumentista)
(V) - Jul. 7 - Augusto Trigo
(IV) - Jun. 26 - Nuno Saraiva
(III) - Maio, 5 - Crumb
2006 (daqui para cima)

(II) - Nov. 16 - João Maio Pinto (desenhador), Esgar Acelerado (argumentista)
(I) - Out. 25 - Uderzo (desenhador), Goscinny (argumentista)
2005 (daqui para cima)


 

quarta-feira, março 19, 2014

Exposições BD Avulsas (XLVIII) João Chambel


Inaugura-se amanhã, 20 de Março, pelas 18h30, uma exposição de Ilustração e BD, com obras dessas duas áreas da autoria de João Chambel, na El Pep Store & Gallery. 

João Chambel dedica-se essencialmente à Ilustração, mas também tem feito BD quando a oportunidade surge. Aliás, há bandas desenhadas dele em vários fanzines, e até num de que ele foi o próprio editor, o Há Festa na Selva.

A sua mais importante participação em BD está registada na obra colectiva "Heróis da Literatura Portuguesa", editada em livro em 2002.
  
Quanto à El Pep Stores & Galley: Como aqui no blogue já foi referenciado, esta nova livraria especializada em banda desenhada situa-se na cave do Centro Comercial Imaviz (daí o nome sugestivo de "Underground Imaviz" pelo qual o pessoal da BD conhece o espaço), em pleno centro de Lisboa, na Avenida Fontes Pereira de Melo, 35 - lojas 34 e 35. 
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JOÃO CHAMBEL

Síntese autobiográfica

João Chambel. Ilustrador e autor de banda desenhada. (Lisboa, 1969)
Da urgência dos fanzines nos finais de 80 (Novos Panoramas do Globo/Baladas de Hollywood; Beijos, Sonhos, Vertigens, Amnésia; Há Festa na Selva; Espanta-Pardais) à corrida de fundo que foi Heróis da Literatura Portuguesa (Íman Edições, 2002), 120 páginas em split com Daniel Lopes (soterradas nos escombros da casa editora), tem serpenteado entre a banda desenhada e a psicologia, com pernoitas na ilustração e outros afazeres domésticos. 
Participa em diversas publicações colectivas de BD, de que é destaque maior a antologia Mutate & Survive (Chili Com Carne, 2001), Futuro Primitivo (CCC, 2011) e Mesinha de Cabeceira #23 (CCC, 2012)
Publica regularmente ilustração e banda desenhada no blogue "A Pele Vermelha" (http://apelevermelha.blogspot.com/) com destaque para "Das kabinett des Doktor Dmitri Mochalische", fluxo gráfico narrativo (ou nem por isso), lançado em Março de 2010, publicação em curso.
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Os visitantes deste blogue que, por mera curiosidade, queiram ver os restantes quarenta e sete "posts" sobre exposições avulsas (ou seja, não inseridas em festivais BD), poderão fazê-lo clicando no item Exposições BD avulsas visível no rodapé 

segunda-feira, março 17, 2014

Entrevista com Jorge Coelho


 







Jorge Coelho (que costuma assinar JCoelho) é um muito talentoso ilustrador autor de banda desenhada, já com valioso currículo em Portugal, e também com considerável colaboração em publicações americanas de BD.

Todavia, demonstrando uma invulgar modéstia e apurado sentido de auto-crítica, Jorge Coelho considerou ser-lhe necessário adquirir mais conhecimentos técnicos para poder evoluir, e por conseguinte decidiu frequentar um curso/workshop orientado por Sean Gordon Murphy.

Pessoalmente, fiquei com muita curiosidade em saber pormenores deste caso inédito. Julgo que seja o primeiro ilustrador/autor de BD português a deslocar-se propositadamente aos Estados Unidos a fim de frequentar um workshop de banda desenhada, e achei que, tal como eu, mais gente do nosso pequeno universo luso da BD gostaria de esmiuçar pormenores desta experiência do categorizado autor.

Daí a entrevista que se segue.

GL - Há umas semanas encontrámo-nos por acaso, e disseste-me que ias fazer um curso aos EUA com Sean Gordon Murphy.
Telefonei-te a 10 de Março, dia do teu regresso, para saber novidades. Combinámos que te faria umas tantas perguntas por email.


Para começar, gostaria que me dissesses em que sítio dos States é que vive o mestre, e onde decorreu o curso, se foi no estúdio dele, ou num estabelecimento oficial.

Jorge Coelho - O curso decorreu na casa do professor que nos providenciou estadia incluída, dois quartos com um beliche cada e um quarto singular. Decorreu em Portland/Maine durante este rigoroso Inverno.

GL - Quanto tempo durou o curso, quando começou e quando acabou.

JCoelho - Foram duas semanas entre 22 de Fevereiro e 9 de Março.

GL - Qual foi o preço do curso?

JC - 2000 dólares, cerca de 1700 euros. 

GL - Como é que tiveste conhecimento da existência desse curso? Efectua-se com frequência, ou foi um caso esporádico? Tem carácter oficial, ou particular?

JC - Tive conhecimento na página de DeviantArt dele,
por sugestão de um grande talento e amigo português, Daniel Henriques, arte-finalista no mercado americano. 
Foi o primeiro workshop de Sean Murphy. Segundo percebi ele irá efectuar dois por ano, um no Inverno e outro no Verão.

GL - Quais as matérias que compunham o curso?

JC - O curso (ou workshop) dividiu-se em duas vertentes principais; a primeira semana com um cariz mais teórico, storytelling, perspectiva, elipses, estratégia, leitura de script, desenvolvimento de personagens e layout. A segunda semana tratou de trabalho concreto, a execução das pranchas em si.

A meio do curso tivemos a honra e privilégio de ter a presença de um artista convidado, neste caso Klaus Janson, arte finalista de Frank Miller na lendária série do Demolidor e Batmam - O Cavaleiro das Trevas.


No final editaremos o livro "Café Racer" com as nossas histórias de 5 pranchas cada, 10 pranchas de história de Sean Murphy mais 5 pranchas de história de um artista convidado, neste caso Joe Dellagatta com textos de Sean Murphy e sua esposa Coleen Katana.

GL - Tenho na minha colecção algumas das edições americanas onde colaboraste: "Outlaw Territory" (volume 2), da Image Comics; "Egg Hard-boiled Stories" e "Venom -The Land Where Killers Dwell", da Marvel. E sei que já fizeste mais trabalhos para os States.
Com tanta concreta aceitação da parte de vários editores americanos, que com certeza consideram que tens qualidade e talento suficientes para colaborares nessas publicações, que motivos te levaram a quereres ir agora frequentar um curso de BD?

JC - Por motivos mais pessoais que objectivos, sempre admirei o trabalho de Sean Murphy, considero-o um dos maiores talentos da Nona Arte mundial. 
Ele reune um conjunto de qualidades artísticas que muito admiro, e também um espírito muito crítico e pragmático, que muito me interessa desenvolver. 
Para além disso, não possuo nenhum grau académico superior, e considero que muita falta me faz renovar, reciclar um pouco a minha formação profissional.


GL - Terminado que está o curso, o único especializado que tiveste, que benefícios é que consideras ter obtido dessa experiência?

JC - Perspectiva. O ponto de vista e experiência de um profissional muito talentoso e algumas valências práticas, tanto artísticas como a nível de gestão de carreira.

GL - Muito obrigado pela tua disponibilidade e pela franqueza com que respondeste às minhas questões.


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JORGE COELHO

Síntese autobiográfica

Nascido em 1977, Lisboa, Portugal. Bem cedo no jardim escola apresentaram-lhe as canetas, lápiz e pincéis. Nunca mais os largou.
Queria ser o Homem-Aranha mas eventualmente, num lapso de pragmatismo, optou por ilustração ou melhor, desenhar BD!

Estudou Artes Gráficas e Comunicação na Escola de Artes António Arroio em 1996, com diversos trabalhos de ilustração editorial publicados no Jornal i, Diário de Notícias, revista AdWeek entre outros e ilustração editorial escolar pela Leya Asa II. Ilustração de cenários de animação para a série "Angelitos" da Animanostra. Ilustração publicitária para Cafés Tofa, Wall Street Institute, e storyboards para agências de publicidade como a TBWA, Euro RSCG, Brandia, McCan, Partners e BBDO. Actualmente trabalha regularmente em Banda Desenhada para o mercado norte americano.

Em Banda Desenhada ilustrou nos livros "Virgin's Trip" El Pep, "Venham +5" nº5 Bedeteca de Beja, "Outlaw Territory" Nº2, Image Comics, "Forgetless" Image Comics e "É De Noite Que Faço As Perguntas" Saída De Emergência, "Polarity" BOOM! Studios e "Venom" Marvel Comics.


Jorge Coelho

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Imagens que ilustram o "post":

1 - Desenho realizado por JCoelho durante o workshop
a) Vinheta finalizada
b) 2º esboço
c) 1º esboço
(Na realidade há mais esboços, mas apenas seleccionei dois mais a arte-final) 

2 - Jorge Coelho

3 - JCoelho e Klaus Janson

4 - Foto da turma de participants no workshop:
Sean Murphy (1º, chão), Clay McCormack (2º, chão), Corin Howell (3ª, escada), Stephen Green (4º, escada), Tana Ford (5ª, escada), JCoelho (6º, topo).


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